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Em 1904, ano em que nasceram o pintor surrealista Salvador Dalí e o jornalista Roberto Marinho, também veio ao mundo Maria de Assis Miranda. Humilde, Dona Maria só agora ficou “famosa”. Ela nasceu em Irupi, que, naquela época, tinha o nome de Cachoeirinha de Rio Pardo. Com mais de um século de vida, a idosa esbanja disposição e simpatia. Com uma memória de dar inveja em muitos jovens, dona Maria mostrou ser uma ótima contadora de histórias. Atualmente morando em São José do Calçado, ela ficou feliz em poder contar um pouco de sua origem e trajetória.

Nascida 16 anos após a abolição da escravatura, Dona Maria contou, com expressão de lamento, ter vivido em um tempo de muito preconceito e exploração. “Eu já trabalhei em fazendas onde meu pagamento era a comida e um lugar pra dormir”, lembra.

Descendente da tribo Puri, Ela diz que sua bisavó foi capturada no meio da mata. “Minha avó foi pega no meio do mato por um homem branco, no interior de Minas Gerais. Depois casou e não voltou mais pra sua terra”, recordou. O sangue indígena, segundo Dona Maria, pode ser um dos motivos de sua longevidade.

Seus pais, Francisco Tomas de Assis e Antônia Pereira de Azevedo, nasceram em Minas Gerais e tiveram 16 filhos. A idosa acredita ser a única sobrevivente entre os irmãos, mas não tem certeza porque perdeu o contato com todos depois que se mudou para o Espírito Santo.

Começando a trabalhar aos sete anos, dona Maria faxinava e cozinhava. Depois, por necessidade, também trabalhou na roça, arando a terra, plantando e colhendo. “Não tive tempo pra diversão. Minha vida sempre foi sofrida”.

O amor

Viúva há mais de vinte anos, dona Maria ainda usa aliança na mão esquerda. Saudosa, ela contou ter conhecido Cândido Rangel Miranda ainda mocinha, aos 21 anos, em Cachoeirinha de Rio Pardo. Cândido foi seu único amor. Eles se casaram e foram morar em São José do Calçado, que na época era apenas uma vila conhecida como Capoeirão.

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Desta união nasceram doze filhos, no entanto, contrariando a lei natural da vida, Dona Maria já enterrou sete. “Tenho cinco filhos ainda vivos. Netos e bisnetos, tenho tantos que já perdi a conta”, disse dona Maria, com um sorriso largo e os olhos brilhando com orgulho da família que cultivou.

O dia mais feliz pra ela foi o do nascimento de seu primeiro filho. O carinho e cuidado com sua descendência era testemunhado diariamente por seus vizinhos. Um deles é o professor de Educação Física, Gabriel Xavier. Ele disse ter morado ao lado da casa de Dona Maria quando ainda era criança. “Lembro quando brincava com os netos dela e ela ficava vigiando. E nada mudou. A mesma aparência, a mesma coisa. Ela sempre cuidou dos netos dela como se fossem filhos”, recordou.

A casa onde Dona Maria mora é simples, sem luxo. Sua vida sempre foi assim, de luta e rotina puxada, e ela revelou que faz isso até hoje. Acorda cedo, todos os dias às 6 horas. Prepara o café da manhã e vê a filha ir trabalhar, a única que ainda mora com ela. Logo em seguida, arruma a casa, lava roupa e cuida da horta que fez no quintal. Dona Maria só para no fim da tarde, quando se arruma para ir à igreja. Evangélica fervorosa, ela desce três ladeiras, de domingo a sexta-feira, para participar dos cultos que começam às 19 horas.

Saúde de ferro

Em 113 anos de vida, dona Maria afirma ter ficado internada apenas uma vez. Isso aconteceu depois de ter completado 100 anos. Uma bronquite fez a idosa passar dias hospitalizada. Com o tempo, a diabetes e a pressão alta também apareceram, porém foram controladas com medicamentos e hoje ela diz não ter mais nada.

Sem restrição com alimentos, o prato preferido de dona Maria é angu com feijão e verduras. Ela não come muita carne, mas confessou usar bastante gordura de porco e óleo ao cozinhar. Descartando a ideia de que viver muitos anos tenha a ver com o tipo de alimentação, Dona Maria acredita que Deus é quem decide o tempo de vida de cada pessoa na terra.

Foto: Sergio Oliveira / Danielle Muruci – Aqui Noticias

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